Pela liberdade das inquietações

 Em Diário da Ju

Há algumas semanas ocorreu um incidente triste em Caixas do Sul, no Rio Grande do Sul, que mexeu muito comigo. O bailarino da Companhia Municipal de Dança da cidade, Igor Cavalcante Medina, foi conduzido a um hospital psiquiátrico ao realizar uma performance em uma praça da cidade.

O motivo? A apresentação da performance “Fim”, que integrava o 8º Caxias em Movimento, evento cultural da cidade. A obra foi confundida com um surto psicótico, mesmo tendo autorização da prefeitura para ser realizada. O artista foi amarrado e levado à força para o hospital, onde ficou por cerca de oito horas até ser liberado por um médico que atestou sua lucidez e sanidade.

Outro exemplo aconteceu esta semana, em que o requerimento de um senador pediu a condução coercitiva do artista Wagner Schwartz e de Gaudêncio Fidelis, curador da exposição “Queermuseu”. Felizmente, ambas foram barradas no Supremo Tribunal Federal (STF).

Estes episódios me fazem refletir ainda mais sobre o papel do artista e a incompreensão da sociedade com tudo que escapa daquilo que os olhos estão acostumados. É estarrecedor saber que ainda hoje em dia bailarinos, músicos, enfim, todos que atuam em atividades artísticas fiquem à mercê de atitudes extremas, originadas no puro preconceito ou falta de conhecimento.

A dança contemporânea é uma expressão artística que desperta esse olhar de inquietação e, de certa forma, já me acostumei a ter que explicar do que se trata e como funciona. Inclusive acredito que este é meu papel como bailarina e coreógrafa, ajudar a desmitificar esta modalidade que me traz tantas alegrias e que acredito que deveria ser difundida e popularizada.

Julgar uma dança ou expressão artística simplesmente por não entendê-la é um desrespeito com os artistas, com o público, com a sociedade como um todo e a diversidade de pensamentos e manifestações.

Sinto-me muito feliz em saber que, de certa forma, contribuo para quebrar barreiras e tornar as expressões artísticas mais acessíveis. É uma alegria saber que por meio do meu trabalho e do blog posso contribuir para um mundo com menos preconceito e menos violência. Conto com vocês nessa jornada!

Juliana Ribeiro, coreógrafa e bailarina profissional especializada em dança contemporânea.

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